Iniciativa de jovens moradores da área conta a história do Museu de Arte Osório César, em Franco da Rocha (SP), do ateliê de arteterapia nos anos 1950 até a implantação da instituição, marco da luta antimanicomial
Você conhece as histórias das obras de arte que estão expostas no Museu de Arte Osório César (MAOC), no Juquery? Sabe a relação delas com o hospital psiquiátrico que deu origem à cidade de Franco da Rocha? Essas são algumas perguntas que a websérie Juquery Por Novas Lentes responde. Criada por jovens moradores da área, a iniciativa é lançada nesta quinta-feira (22).
“A gente que cresce em um lugar como Franco da Rocha ou Francisco Morato tem certa dificuldade de entender nosso lugar no mundo. Depois da Lei Antimanicomial o hospital foi desativado em um processo que durou mais de vinte anos, e desde então estamos tentando entender que lugar é esse e que marcas ele deixou na gente”, conta Amara Hartmann, atriz e produtora, uma das idealizadoras do projeto.
O hospital psiquiátrico do Juquery foi aberto em 1898. Seu primeiro diretor, o médico Francisco Franco da Rocha, anos depois deu nome à cidade que cresceu em volta da instituição. Com projeto do engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo (autor do Theatro Municipal de São Paulo), o hospital ocupava um terreno de 600 mil metros quadrados. Na época da ditadura civil-militar, superlotado, chegou a receber mais de 14 mil pessoas e ficou notório como um local de violações de direitos.
Na mesma instituição, no entanto, foi feita uma ação pioneira de arteterapia. Entre as décadas de 1950 e 1970, funcionou ali a Escola Livre de Artes Plástica do Juquery, um ateliê para internos do hospital criado através do médico psiquiatra, artista e crítico Osório César. O resultado desse trabalho pode ser visto hoje no MAOC, museu fundado em 1985 (fechado em 2005 depois de incêndio e reaberto em 2020), e figura em instituições e exposições de arte importantes no país.
A relação de Amara com o local, como ocorre com muitos moradores da área, é íntima: sua avó trabalhou ali. Paloma Rodrigues, também idealizadora do Juquery Por Novas Lentes, percebe que existe um movimento de construção de uma nova memória “sem apagar ou esconder o que o local foi, mas evidenciando uma parte fundamental da reforma antimanicomial que foi a implementação do museu”.
O complicado do Juquery vem recebendo, por exemplo, o festival cultural Soy Loco Por Ti Juquery desde 2018. Outras ações de arte também vêm se dando ali, como ensaios de grupos de teatro e iniciativas diversas do museu.
Sobre a websérie
A websérie tem cinco episódios e foi feita com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC) e da Lei Aldir Blanc. A começar de 22 de janeiro, a cada quinta-feira até 19 de fevereiro um episódio é lançado no canal da Romã Atômica Produtora. Os vídeos têm legenda descritiva e tradução em libras. No primeiro episódio, as idealizadoras do projeto contextualizam o lugar: falam sobre quando nasce o hospital e sua importância para o município e a área. Já os próximos episódios adentram na fundação do Museu de Arte Osório César, no trabalho de arteterapia, na valorização e recuperação desse acervo de obras existente ali.
A professora Heloísa Ferraz participa falando sobre seu envolvimento com o acervo, com o qual tomou contato no momento de redemocratização do país, quando se olhou para o local de forma mais sensível. “Osório César abordava o trabalho dos pacientes dentro de uma ótica artística e estética, e trazia para cá importantes nomes do modernismo e arte-educadores. O ateliê conseguiu desenvolver em muitos pacientes uma possibilidade de expressão inigualável”, conta ela, que atuou na instituição em 1985, como parte de uma pesquisa-ação através da USP.
Em outro episódio, a museóloga do MAOC Michelle Guimarães fala sobre a necessidade do tombamento do museu depois de o incêndio de 2005, amparando a preservação do espaço. “Vivemos uma nova noção de sociedade e de como nos relacionamos com o tema da saúde mental, então como o museu pode contribuir para isso?”, questiona, evidenciando a necessidade da instituição.
Um dos episódios da websérie fala sobre o processo de digitalização do acervo do museu, com registros fotográficos iniciais de 500 obras (o local tem aproxamadamente 8 mil trabalhos) que vêm sendo feitos com apoio também do ProAC. O plano é dar acesso a esse material, pensando inclusive na população da área.
“É interessante refletir sobre como esses artistas produziam e, na ausência de informações sobre eles, suas obras nos guiam e a partir delas podemos refletir sobre suas realidades no hospital psiquiátrico, o cotidiano da cidade, o Brasil e o mundo, pois aqui tinham pessoas de diversos lugares”, explica o pesquisador Elielton Ribeiro, co-idealizador do Juquery por Novas Lentes que assina a coordenação de pesquisa e curadoria do projeto.
Websérie Juquery Por Novas Lentes
No ar nos dias 22/01, 29/01, 05/02, 12/02 e 19/02 no canal da Romã Atômica
Ficha técnica
Produção: Romã Atômica e Coração de Fogo
Direção de produção e idealização: Paloma Rodrigues
Produção executiva e idealização: Amara Hartmann
Direção de vídeo e fotografia: Cora Credidio
Edição de vídeo: Cora Credidio
Platô: Sofia Lopes
Cenotécnico: Sávio Torres
Pesquisa, curadoria e idealização: Elielton Ribeiro
Assistente de pesquisa e curadoria: Bruno Hartmann
Fotógrafo de obra: Rodrigo Reis
Assessoria Jurídica: Martha Macruz
Editor: Celso Suarana
Assistente editorial: Ruano Berenguel
Editoração: Pome Editorial e Abarca Editora
Direção de comunicação: Matheus Jeronimo
Design Gráfico: Victor Paula
Apoio: Maoc e Prefeitura Municipal de Franco da Rocha
Fotos: externa – Orlando Junior / obras – Elielton Rodrigues – Texto: Release do Projeto
Fonte: Francodarocha.sp.gov.br

